"O irônico é uma vampira que sugou o sangue de seu amante e o abanou com frescor, o embalou até dormir e o atormenta com sonhos turbulentos" (Soren Kierkegaard. In: The Concept of Irony).

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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Poeminha do contra


Tirei esta foto da foto, simulacro do simulacro, quando fui à Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre. Me encantei com o sorriso do poeta e logo, abaixo, este poeminha, uma das minhas orações diárias, que me acompanha desde Feira.
E olha que eu venho passarinhando a muito tempo, mas de vez em quando baixo as armas, e acredito que as pessoas são boas ou não querem atravancar a não ser o seu próprio caminho. Mas, de quando em vez, me deparo com alguns atravancadores de caminhos alheios, me chateio, caio na real (isso aqui não é novela, menina!) e, logo depois, penso e rezo a oração que Quintana fez para mim.  
Sim, ele fez para mim, para vc e para todos nós. Acho que para entendermos que tantos os atravancadores quanto os problemas que eles nos trazem irão sempre passar, enquanto eu continuarei e, vc se quiser, a passarinhar!!
Viva Quintana!!!

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Carpe diem

aproveita o momento

quando os olhos falam uma língua 
que a língua não sabe
quando as mãos seguram o instante
como se fossem avaras de eternidade
quando os ouvidos apenas suportam
a música dos ansiados passos
e há um único aroma que se não repugna
quando o teu sorriso é o reflexo
do sorriso à tua frente
quando as estrelas são todas convocadas
para iluminar o rosto desejado
então é a hora o minuto o segundo
de fechar os olhos e ganhar asas

aproveita o momento

a vida só é curta quando não subimos
o estribo da carruagem que parte
quando ficamos a ver passar todos os comboios
a vida só é aventura quando se busca a ventura
que não tem pés para vir ter connosco
é preciso partir dar as mãos ao inédito
e assumir que quando caminhamos
nem todo o terreno é um pântano assustador
é preciso acreditar

aproveita o momento

porque outros momentos virão
em que nada pode acontecer
porque o tempo resvala inexorável
e o instante seguinte é muito tarde
e pelo menos tão desconhecido quanto este
porque os cabelos encanecem
e as mãos ficam murchas de esperança
e o peito qualquer dia é um assento de pedra
porque só agora é agora e logo o sol já se deitou
e amanhã já perdeste metade dos ensejos

aproveita o momento
e eterniza-o o mais que puderes
aproveita o momento
e dá-lhe as boas vindas
sorri-lhe manda-o entrar
e adormece no seu ombro.


MONTEIRO, Anthero. Carpe diem. In: Sete Vezes Sete Nuvens. Porto: Egoiste, 2010

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Canção para a menina maltratada


Não, não será com métrica
nem com rima.
Uma coisa sem nome violentou uma menina.
Ação barata
sem a prata
do pensamento
o ouro do sentimento
o dia da empatia. Noite.
Uma coisa. Não era o lobo
nem o ogre nem a bruxa,
era a fúria do real
sem o carinho do símbolo.
Stop, a poesia parou.
Ou foi a humanidade?
Stop nada, a menina sente e segue
com métrica, rima, graça, vida.
Onde está tua vitória, ignomínia?
Uma prosa continua
poética como era
saltitante o bastante
para não perder a poesia.
A coisa (homem?) é punida como um lobo
no conto de verdade. E imprime-se um nome
na ignomínia.
A menina liberta expressa
ri e chora, volta a ser
qualquer (única) menina.
Pronta para a métrica
pronta para a rima
pronta para a vida
(canto de cicatriz),
pronta para o amor a dois,
à espera, suave, escolhido.

Celso Gutfreind



P.S: Assistam o documentário “Canto de cicatriz” (RS, 2005, 37min, Beta). Direção, roteiro, montagem e produção executiva de Laís Chaffe. Documentário sobre violência sexual contra meninas. Direção de fotografia: Juliano Lopes Fortes. Música: Yanto Laitano. Direção de produção: Raquel Sager. Participação especial: Ingra Liberato, com o poema Canção para a menina maltratada, de Celso Gutfreind. PRÊMIO DIREITOS HUMANOS NO RS; DOIS PRÊMIOS GALGO ALADO NO GRAMADO CINE VÍDEO: MELHOR NO GÊNERO VÍDEO SOCIAL E MELHOR VÍDEO INDEPENDENTE BRASILEIRO.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Sociedade



O homem disse para o amigo:
– Breve irei a tua casa
e levarei minha mulher.

O amigo enfeitou a casa
e quando o homem chegou com a mulher,
soltou uma dúzia de foguetes.

O homem comeu e bebeu.
A mulher bebeu e cantou.
Os dois dançaram.
O amigo estava muito satisfeito.

Quando foi hora de sair,
o amigo disse para o homem:
– Breve irei a tua casa.
E apertou a mão dos dois.

No caminho o homem resmunga:
– Ora essa, era o que faltava.
E a mulher ajunta: – Que idiota.

– A casa é um ninho de pulgas.
– Reparaste o bife queimado?
O piano ruim e a comida pouca.

E todas as quintas-feiras
eles voltam à casa do amigo
que ainda não pôde retribuir a visita.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Nova Reunião: 19 livros de poesia.
Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 1983, p. 31.