"O irônico é uma vampira que sugou o sangue de seu amante e o abanou com frescor, o embalou até dormir e o atormenta com sonhos turbulentos" (Soren Kierkegaard. In: The Concept of Irony).

Mostrando postagens com marcador Opinião. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Opinião. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Quando a mãe da gente aparece...

Minha mãe veio, como notícia boa, nos visitar. Mais de 6h de viagem de Mucugê até aqui, mas veio. Chegou na tarde de terça, ficou toda a quarta e no terceiro dia partiu deixando o meu coração saudoso e choroso.

Mãe é assim: pode ficar poucos dias, mas a sentimos como se nunca tivéssemos saído de perto da barra de sua saia.

Neste pouco tempo,  apenas aproveitei a sua presença para assumir o meu papel de filha... e lhe contar algumas dores. E ela em sua sabedoria materna me disse: Perdoe, minha filha! Vc precisar seguir em frente sem essas mágoas em seu coração!

Hoje, um dia depois de ela voltar para casa, a saudade ainda é forte,
mas a esperança de que posso andar com o coração mais leve
tomou conta de mim!

Te amo, mãe!

quinta-feira, 11 de março de 2010

Blogs, twitter, orkut e outros buracos

- Não estou no “twitter”, não sei o que é o “twitter”, jamais entrarei neste terreno baldio e, incrivelmente, tenho 26 mil “seguidores” no “twitter”. Quem me pôs lá? Quem foi o canalha que usou meu nome? Jamais saberei. Vivemos no poço escuro da web. Ou buscamos a exposição total para ser “celebridade” ou usamos esse anonimato irresponsável com nome dos outros. Tem gente que fala para mim: “Faz um blog, faz um blog!” Logo eu, que já sou um blog vivo, tagarelando na TV, rádio e jornais… Jamais farei um blog, este nome que parece um coaxar de sapo-boi. Quero o passado. Quero o lápis na orelha do quitandeiro, quero o gato do armazém dormindo no saco de batatas, quero o telefone preto, de disco, que não dá linha, em vez dos gemidinhos dos celulares incessantes.

Comunicar o quê? Ninguém tem nada a dizer. Olho as opiniões, as discussões “online” e só vejo besteira, frases de 140 caracteres para nada dizer. Vivemos a grande invasão dos lugares-comuns, dos uivos de medíocres ecoando asnices para ocultar sua solidão deprimente.

O que espanta é a velocidade da luz para a lentidão dos pensamentos, uma movimentação “em rede” para raciocínios lineares. A boa e velha burrice continua intocada, agora disfarçada pelo charme da rapidez. Antigamente, os burros eram humildes; se esgueiravam pelos cantos, ouvindo, amargurados, os inteligentes deitando falação. Agora não; é a revolução dos idiotas online.

Quero sossego, mas querem me expandir, esticar meus braços em tentáculos digitais, meus olhos no “google”, (“goggles” – olhos arregalados) em órbitas giratórias, querem que eu seja ubíquo, quando desejo caminhar na condição de pobre bicho bípede; não quero tudo saber, ao contrário, quero esquecer; sinto que estão criando desejos que não tenho, fomes que perdi. Estamos virando aparelhos; os homens andam como robôs, falam como microfones, ouvem como celulares, não sabemos se estamos com tesão ou se criam o tesão em nós. O Brasil está tonto, perdido entre tecnologias novas cercadas de miséria e estupidez por todos os lados. A tecnociência nos enfiou uma lógica produtiva de fábricas vivas, chips, pílulas para tudo, enquanto a barbárie mais vagabunda corre solta no País, balas perdidas, jaquetas e tênis roubados, com a falsa esquerda sendo pautada pela mais sinistra direita que já tivemos, com o Jucá e o Calheiros botando o Chávez no Mercosul para “talibanizar” de vez a América Latina. Temos de ‘funcionar’ – não viver. Somos carros, somos celulares, somos circuitos sem pausa. Assistimos a chacinas diárias do tráfico entre chips e “websites”.

ESCRITORES FANTASMAS

O leitor perguntará: “Por que este ódio todo, bom Jabor?” Claro que acho a revolução digital a coisa mais importante dos séculos. Mas estou com raiva por causa dos textos apócrifos que continuam enfiando na internet com meu nome.

Já reclamei aqui desses textos, mas tenho de me repetir. Todo dia surge uma nova besteira, com dezenas de e-mails me elogiando pelo que eu “não” fiz. Vou indo pela rua e três senhoras me abordam – “Teu artigo na internet é genial! Principalmente quando você escreve: ‘As mulheres são tão cheirosinhas; elas fazem biquinho e deitam no teu ombro…’”

“Não fui eu…”, respondo. Elas não ouvem e continuam: “Modéstia sua! Finalmente alguém diz a verdade sobre as mulheres! Mandei isso para mil amigas! Adoraram aquela parte: ‘Tenho horror à mulher perfeitinha. Acho ótimo celulite…’” Repito que não é meu, mas elas (em geral barangas) replicam: “Ah… É teu melhor texto…” – e vão embora, rebolando, felizes.

Sei que a internet democratiza, dando acesso a todos para se expressar. Mas a democracia também libera a idiotia. Deviam inventar um “antispam” para bobagens.

Vejam mais o que “eu” escrevi: “As mulheres de hoje lutam para ser magrinhas. Elas têm horror de qualquer carninha saindo da calça de cintura tão baixa que o cós acaba!”… Luto dia e noite contra cacófatos e jamais escreveria “cós acaba!”. Mas, para todos os efeitos, fui eu. Na internet eu sou amado como uma besta quadrada, um forte asno… (dirão meus inimigos: “Finalmente, ele se encontrou…”)

Vejam as banalidades que me atribuem:

“Bom mesmo é ter problema na cabeça, sorriso na boca e paz no coração!”

Ou: “A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso cante, chore, dance e viva intensamente antes que a cortina se feche!”

Ainda sobre a mulher: “São escravas aparentemente alforriadas numa grande senzala sem grades.”

Há um texto bem gay sobre os gaúchos, há mais de um ano. Fui “eu”, a mula virtual, quem escreveu tudo isso. E não adianta desmentir.

Esta semana descobri mais. Há um texto rolando (e sendo elogiado) sobre “ninguém ama uma pessoa pelas qualidades que ela tem” ou outro em que louvo a estupidez, chamado “Seja Idiota!”…

Mas o pior são artigos escritos por inimigos covardes para me sujar. Há um texto de extrema direita, boçal, xingando os brasileiros, onde há coisas como: “Brasileiro é babaca. Elege para o cargo mais importante do Estado um sujeito que não tem escolaridade e preparo nem para ser gari. Brasileiro é um povo trabalhador. Mentira. Brasileiro é vagabundo por excelência. Um povo que se conforma em receber uma esmola do governo de 90 reais mensais para não fazer nada, não pode ser adjetivado de outra coisa que não de vagabundo. 90% de quem vive na favela é gente honesta e trabalhadora. Mentira. Muito pai de família sonha que o filho seja aceito como ‘aviãozinho’ do tráfico para ganhar uma grana legal. Se a maioria da favela fosse honesta, já teriam existido condições de se tocar os bandidos de lá para fora… O brasileiro merece! É igual a mulher de malandro – gosta de apanhar…”

E o pior é que muita gente me cumprimenta pela “coragem” de ter escrito esta sordidez.

Ou seja: admiram-me pelo que eu teria de pior; sou amado pelo que não escrevi. Na internet, eu sou machista, gay, idiota, corno e fascista. É bonito isso?

Arnaldo Jabor
Transcrito do Estado de São Paulo

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Sem ilusões



Não, não pensem que existe um outro mundo! Pensem nas suas possibilidades aqui e agora! Reconheçam o valor deste mundo, pois só há este e ele é cruel, cheio de tragédias diárias. Ligue a TV e verás que “eles” só falam da violência, de sangue e mortes. Isto dá audiência! A morte dá audiência, muito mais até do que a vida! Ficamos ali à frente do aparelho (de controle), muitas vezes chorando, com pena e pensando o quanto é bom estar vivo. “Antes ele do que eu?” Mas, até quando?
Nos últimos dias, tanto a Tv quanto os jornais impressos e a internet vem noticiando as nossas tragédias líderes de audiência do momento. A Tragédia de Angra - na qual deslizamentos de terra causaram dezenas de mortes na madrugada do dia 1º de janeiro – foi disputada pelos canais de televisão exaustiamente. Quem tivesse o melhor depoimento, a melhor foto, o melhor texto (tem que ser uma novelinha, senão não emociona) levaria a audiência. Quem ganhou? Não sei!! Ou melhor, será que temos um vencedor numa situação dessas? Só sei que quando achávamos que o pior já havia acontecido neste ano novo, veio um terremoto no Haiti para nos fazer esquecer dos mortos do Rio de Janeiro. Agora são os pobres haitianos que estão na mídia, que estão na mira. São eles que alavancam a audiência dos canais televisivos, sites na internet e nos fazem refletir sobre a vida, o viver.
Ah, mas você pode me dizer que não assiste TV, tudo bem, seu vizinho, sua namorada, sua empregada, seu pai ou qualquer outro lhe contará tudo e, com detalhes. Você saberá que foi um terremoto de magnitude 7 na escala Richter que atingiu o Haiti no último dia 12 e que ele é o mais forte a atingir o país nos últimos 200 anos. O número de mortos não é conhecido com precisão, embora fontes noticiosas afirmem que pode chegar aos 200 mil, e o número de desabrigados pode chegar aos três milhões. Mas, será que o país mais pobre do hemisfério ocidental, com 80% de sua população vivendo em extrema pobreza, com menos de US$ 2 por dia, está passando pelo seu pior momento?
Um dado positivo: O Haiti foi a primeira república negra do mundo a declarar sua independência. Que bom!! Mas, não nos esqueçamos que 45,2% da população é analfabeta; a expectativa de vida é de apenas 60,9 anos; possui mais de 300 mil crianças órfãs; dois terços dos haitianos dependem do setor agrícola e são vulneráveis aos danos ocasionados por desastres naturais, agravados pelo desmatamento; o governo haitiano depende de ajuda internacional para seu sustento fiscal; o narcotráfico corrompeu o sistema judicial e as forças policiais; durante décadas, o Haiti viveu sob o poder dos governos brutais de François "Papa Doc" Duvalier e seu filho, Jean-Claude, conhecido como "Baby Doc"; o Haiti prossegue afetado por confrontos violentos entre gangues e grupos políticos rivais. Tudo isso levou a ONU a classificar a situação de direitos humanos como catastrófica. Cansou? Espero que não, porque em 2008, o Haiti foi atingido por uma série de tempestades e furações que deixaram cerca de mil mortos, mais de 800 mil pessoas desabrigadas e causaram prejuízos de mais de US$ 1 bilhão. O país também importa a maior parte da comida que consome o que fez com se tornasse um dos países mais atingidos pela crise alimentar causada pela alta nos preços dos alimentos...
Eu poderia ficar anos aqui mostrando a todos o quanto o Haiti é um país acostumado às tragédias, o quanto aquele povo sofre e o quanto ainda sofrerão. Entretanto, “contra fatos não há argumentos”, e o que nos resta é acreditar (sem ilusões) que no lugar daqueles escombros serão levantadas escolas, igrejas, casas... O que nos resta é acreditar (sem ilusões) que as toneladas de alimento que se encontram em galpões improvisados serão distribuídas a tempo, antes que a fome faça sua parte neste teatro de horrores. O que nos resta é acreditar (sem ilusões) que ainda há sobreviventes.
O que nos resta fazer????