"O irônico é uma vampira que sugou o sangue de seu amante e o abanou com frescor, o embalou até dormir e o atormenta com sonhos turbulentos" (Soren Kierkegaard. In: The Concept of Irony).

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Aos encontros

Há encontros que são sempre desejados
Uns veem seus desejos realizados
Outros, como eu, sonham...

Cheguei ao Aeroporto do Galeão às 17hs.
De lá, seguir, ansiosa, para um encontro na Av. Atlântida.
Há muito tempo, tento marcar este encontro...
Ele sempre ocupado com os seus textos dramáticos, suas crônicas, seus contos, seus desafetos...
Cheguei.
Desço do táxi e vejo, na varanda de um restaurante, ele.
Os suspensórios; o cigarro ordinário, entre os dedos; um cafezinho, ao lado.
Olhava para as meninas que passavam...
Não me conhecia, não sabia quem, de fato, eu era e aceitou este encontro!?
Fiquei, ainda, uns 18 min, olhando-o, emocionada.
Me aproximo e digo: - Nelson? 
Ele me olha e se lembra o porquê de estar ali: - Solange? Que prazer em conhecê-la!! Sente-se. Alguma coisa? Um cigarro?
- Não antes de um abraço...

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A carta

Depois de dois anos de casada, Amélia continuava vivendo como uma moça aflita de emoções e cansada daquela mesmice de mulher séria e respeitável. O marido, Augusto, trabalhava na Petrobrás e por isso viajava muito. Estava, quase todo tempo, no Rio de Janeiro, deixando a mulher aos cuidados do amigo Sebastião e da empregada Aurora.

Amélia acordava às 10h e permanecia na cama até as 12h. Gostava de ficar de camisola, lendo os seus adoráveis romances. Agora lia A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho. E, a cada página, um suspiro de nostalgia que lhe cortava o peito. Queria tanto ser Marguerite Gautier que quando lia o romance esquecia-se de tudo e de todos. Imaginava a cena na qual Armand é apresentado a ela e ouvia Prudence, sua vizinha, lhe dizer que ele estava apaixonado... Amélia, decididamente, tomava o lugar de Marguerite para viver aquela história de amor, sem, é claro, sofrer as sanções que aquela sofrera.

Pensava em Augusto vez por outra e, principalmente, quando precisava de dinheiro para pagar seus luxos de burguesa de classe média. No resto, o marido não era o que sonhara. Não era romântico, nem tinha os galanteios que os personagens, imaginados e amados por ela, tinham. Casou-se porque tinha que ser assim... Para marido cumpridor de seu dever, Augusto servia. Além disso, ele não podia ser mais do que era.

Antes de se casar, Amélia teve apenas dois namorados. O primeiro foi Lúcio, amigo de seu irmão Joaquim, e que logo a decepcionou pelo seu temperamento machista e conservador. Já o segundo, Carlos, a agradou mais do que desejou. Recitava poesias, mandava-lhe flores, era gentil, cheio de galanteios e sempre lhe beijava como se fosse o último beijo de suas vidas. Aquilo a fazia estremecer e um frio lhe descia pelo corpo parando ali, onde as formigas imaginárias festejavam a sua ânsia de entrega.

Esse namoro durou apenas 06 meses. Carlos foi ao Rio Grande do Sul resolver alguns problemas de família. Amélia ainda esperou por 02 anos, mas ele não deu notícias e nem lhe mandou, pelo menos, uma carta.

Foi com o coração partido que encontrou Augusto. Moço promissor, assim disse seu pai. Já ela, pouco se importava com os elogios paternais ao seu novo pretendente, ainda sonhava com Carlos. Entretanto, o tempo é cruel e como ela já se aproximava dos 20 anos, o melhor foi se casar com aquele moço bom e gentil.

Depois do casamento, Amélia já não pensava tanto em Carlos. Havia substituído-o pelos rapazes que viviam escondidos nas páginas de seus livros. Não foram poucas as vezes, que sonhou com todos aqueles homens. Estava sempre nua, numa grande cama, e ao seu lado um homem forte, bonito e muito sedutor que a tocava luxuriosamente.

- Ah, como sou feliz!! Suspirava Amélia enquanto se entregava à eles.

Não houve como escapar: tornou-se amante de todos. E sempre que podia se transportava para a alcova do prazer, ali era feliz e era mulher. Ali, ela não precisava ter pudores nem os receios que a possuíam quando fazia amor com o marido de comportamento amoroso regrado.

- A mulher tem que ser séria até na cama, dizia Augusto. Eu não quero que a minha esposa peque nem comigo!

Ela concordava, beijando-o na testa.

Aurora, a sua empregada, vivia nos fundos da casa, num quartinho imundo e pequeno. Foi dama de companhia da mãe de Augusto e quando a velha faleceu ela pediu para ficar cuidando da casa e de D. Amélia. Augusto, com pena, concordou. Amélia detestou. Não gostava daquele olhar interrogador, mas para não contrariar o marido, aceitou-a. Quase nunca se falavam e quando isso acontecia Amélia só ordenava e a humilhava. Isso também lhe dava prazer... Assim viveram, todos numa eterna repetição, até o dia 12 de dezembro, uma semana antes do aniversário de Augusto.

Amélia foi até o centro para comprar algumas coisas para festa que sempre faziam naquela data. Festa não, uma reunião com Sebastião, ela e Augusto. Detestava aquilo, queria mais luxo, mais ostentação, mas o marido não era chegado a essas coisas.

Passa pela Delicatessen, vai ao Shopping e no ponto de táxi alguém a toca no ombro, vira-se e vê incrédula, Carlos. Reconheceu-o pelos olhos. Eram os mesmos.

- Amélia? Nem acredito. É você mesmo?

- Sim. Carlos? O que faz aqui?? (excitada)

O seu coração parecia que ia saltar pela boca. Um frio pelo corpo a fez gelar e tremer por dentro. Sempre sonhou com aquele reencontro, ao acaso.

Deixa o táxi e vão para uma lanchonete ali perto. Sentam e passam uma eternidade calados. Olham-se como da primeira vez.

- Você continua linda!

Excitada, Amélia fica vermelha e mal responde.

- O que há? Está tudo bem contigo? Não quer falar comigo? Vou-me então...

- Não, fica! É que estou surpresa. Nunca pensei em revê-lo (mentira). Faz muito tempo... e agora, você aqui, na minha frente. Nem parece real.

- Voltei para procurá-la. Nunca a esqueci, nem pude! Desde que partir que a trago aqui... (aponta para o peito). Ah, Amélia como sofri até o dia de hoje. Como me lamentei ter te perdido para outro. Por quê? Sempre me pergunto. Por que a vida fez isso conosco? Mandei-lhe cartas e você só me respondeu a primeira, e com muito rancor. Nem acreditei quando a li. Não podia ser você. Mas era...

Surpresa, ela não sabia o que dizer. Carta? Que carta? Nunca recebera nenhuma carta dele.

- Carlos, eu nunca recebi nenhuma carta sua, tampouco lhe respondi. Que história é essa?

Carlos tira um envelope amarelado pelo tempo e gasto de tanto ser tocado e lido por ele do bolso. Amélia não acredita, era a letra de Augusto!

- Meu Deus, como pôde? Ele sabia de nós dois? Como pôde fazer isso comigo?

Carlos tenta acalmá-la, mas é impossível. Amélia já estava descontrolada e com o coração em migalhas, despedaçado por aquela verdade. Levanta-se e diz adeus aquele homem que tanto desejou, mas que não foi capaz de fazer o que Augusto fez: Mentir e tripudiar pelo seu amor. Só quem ama muito é capaz de tal artimanha, pensou.

Retornou à sua casa mais mulher e feliz. Enfim, vivia um pouco daquelas histórias que tanto lera e invejara...


P.S.: Ainda na UEFS, em 2008, ao estudarmos o realismo português com o Prof. Cid Seixas, foi proposto à nossa turma que redigisse um texto literário a partir de dois romances de Eça de Queirós: O crime do Padre Amaro e O Primo Basílio. Aceitei o desafio e "parir" isso a partir do segundo romance. Sempre que o leio rio muito, pois tenho a sensação de está assistindo uma novela mexicana...

quinta-feira, 11 de março de 2010

Blogs, twitter, orkut e outros buracos

- Não estou no “twitter”, não sei o que é o “twitter”, jamais entrarei neste terreno baldio e, incrivelmente, tenho 26 mil “seguidores” no “twitter”. Quem me pôs lá? Quem foi o canalha que usou meu nome? Jamais saberei. Vivemos no poço escuro da web. Ou buscamos a exposição total para ser “celebridade” ou usamos esse anonimato irresponsável com nome dos outros. Tem gente que fala para mim: “Faz um blog, faz um blog!” Logo eu, que já sou um blog vivo, tagarelando na TV, rádio e jornais… Jamais farei um blog, este nome que parece um coaxar de sapo-boi. Quero o passado. Quero o lápis na orelha do quitandeiro, quero o gato do armazém dormindo no saco de batatas, quero o telefone preto, de disco, que não dá linha, em vez dos gemidinhos dos celulares incessantes.

Comunicar o quê? Ninguém tem nada a dizer. Olho as opiniões, as discussões “online” e só vejo besteira, frases de 140 caracteres para nada dizer. Vivemos a grande invasão dos lugares-comuns, dos uivos de medíocres ecoando asnices para ocultar sua solidão deprimente.

O que espanta é a velocidade da luz para a lentidão dos pensamentos, uma movimentação “em rede” para raciocínios lineares. A boa e velha burrice continua intocada, agora disfarçada pelo charme da rapidez. Antigamente, os burros eram humildes; se esgueiravam pelos cantos, ouvindo, amargurados, os inteligentes deitando falação. Agora não; é a revolução dos idiotas online.

Quero sossego, mas querem me expandir, esticar meus braços em tentáculos digitais, meus olhos no “google”, (“goggles” – olhos arregalados) em órbitas giratórias, querem que eu seja ubíquo, quando desejo caminhar na condição de pobre bicho bípede; não quero tudo saber, ao contrário, quero esquecer; sinto que estão criando desejos que não tenho, fomes que perdi. Estamos virando aparelhos; os homens andam como robôs, falam como microfones, ouvem como celulares, não sabemos se estamos com tesão ou se criam o tesão em nós. O Brasil está tonto, perdido entre tecnologias novas cercadas de miséria e estupidez por todos os lados. A tecnociência nos enfiou uma lógica produtiva de fábricas vivas, chips, pílulas para tudo, enquanto a barbárie mais vagabunda corre solta no País, balas perdidas, jaquetas e tênis roubados, com a falsa esquerda sendo pautada pela mais sinistra direita que já tivemos, com o Jucá e o Calheiros botando o Chávez no Mercosul para “talibanizar” de vez a América Latina. Temos de ‘funcionar’ – não viver. Somos carros, somos celulares, somos circuitos sem pausa. Assistimos a chacinas diárias do tráfico entre chips e “websites”.

ESCRITORES FANTASMAS

O leitor perguntará: “Por que este ódio todo, bom Jabor?” Claro que acho a revolução digital a coisa mais importante dos séculos. Mas estou com raiva por causa dos textos apócrifos que continuam enfiando na internet com meu nome.

Já reclamei aqui desses textos, mas tenho de me repetir. Todo dia surge uma nova besteira, com dezenas de e-mails me elogiando pelo que eu “não” fiz. Vou indo pela rua e três senhoras me abordam – “Teu artigo na internet é genial! Principalmente quando você escreve: ‘As mulheres são tão cheirosinhas; elas fazem biquinho e deitam no teu ombro…’”

“Não fui eu…”, respondo. Elas não ouvem e continuam: “Modéstia sua! Finalmente alguém diz a verdade sobre as mulheres! Mandei isso para mil amigas! Adoraram aquela parte: ‘Tenho horror à mulher perfeitinha. Acho ótimo celulite…’” Repito que não é meu, mas elas (em geral barangas) replicam: “Ah… É teu melhor texto…” – e vão embora, rebolando, felizes.

Sei que a internet democratiza, dando acesso a todos para se expressar. Mas a democracia também libera a idiotia. Deviam inventar um “antispam” para bobagens.

Vejam mais o que “eu” escrevi: “As mulheres de hoje lutam para ser magrinhas. Elas têm horror de qualquer carninha saindo da calça de cintura tão baixa que o cós acaba!”… Luto dia e noite contra cacófatos e jamais escreveria “cós acaba!”. Mas, para todos os efeitos, fui eu. Na internet eu sou amado como uma besta quadrada, um forte asno… (dirão meus inimigos: “Finalmente, ele se encontrou…”)

Vejam as banalidades que me atribuem:

“Bom mesmo é ter problema na cabeça, sorriso na boca e paz no coração!”

Ou: “A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso cante, chore, dance e viva intensamente antes que a cortina se feche!”

Ainda sobre a mulher: “São escravas aparentemente alforriadas numa grande senzala sem grades.”

Há um texto bem gay sobre os gaúchos, há mais de um ano. Fui “eu”, a mula virtual, quem escreveu tudo isso. E não adianta desmentir.

Esta semana descobri mais. Há um texto rolando (e sendo elogiado) sobre “ninguém ama uma pessoa pelas qualidades que ela tem” ou outro em que louvo a estupidez, chamado “Seja Idiota!”…

Mas o pior são artigos escritos por inimigos covardes para me sujar. Há um texto de extrema direita, boçal, xingando os brasileiros, onde há coisas como: “Brasileiro é babaca. Elege para o cargo mais importante do Estado um sujeito que não tem escolaridade e preparo nem para ser gari. Brasileiro é um povo trabalhador. Mentira. Brasileiro é vagabundo por excelência. Um povo que se conforma em receber uma esmola do governo de 90 reais mensais para não fazer nada, não pode ser adjetivado de outra coisa que não de vagabundo. 90% de quem vive na favela é gente honesta e trabalhadora. Mentira. Muito pai de família sonha que o filho seja aceito como ‘aviãozinho’ do tráfico para ganhar uma grana legal. Se a maioria da favela fosse honesta, já teriam existido condições de se tocar os bandidos de lá para fora… O brasileiro merece! É igual a mulher de malandro – gosta de apanhar…”

E o pior é que muita gente me cumprimenta pela “coragem” de ter escrito esta sordidez.

Ou seja: admiram-me pelo que eu teria de pior; sou amado pelo que não escrevi. Na internet, eu sou machista, gay, idiota, corno e fascista. É bonito isso?

Arnaldo Jabor
Transcrito do Estado de São Paulo

sexta-feira, 5 de março de 2010

SENALIC - II Seminário Nacional Literatura e Cultura – UFS

Prezados pesquisadores,
O II Seminário Nacional Literatura e Cultura acontecerá nos dia 27 e 28 de maio de 2010.

Inscrições para apresentar comunicações de 08/03 a 20/04.

Inscrições como ouvinte de 15/03 a 15/04.

Obs.: Até 30 de março haverá desconto de 10 reais na taxa de inscrição.


Grupos temáticos para apresentação de comunicação:

GT 1 – Crimes, Pecados e Monstruosidades

GT 2 – O imaginário mítico na literatura

GT 3 – Escritores sergipanos e regionalistas

GT 4 – Estudos de gênero na literatura e cultura

GT 5 – Ensino de literatura e literatura infanto-juvenil

GT 7 – Literatura Comparada em diferentes perspectivas culturais

GT 8 – Literatura e Estudos culturais

GT 9 – Literaturas pós-coloniais

GT 10 – Literatura e outras artes


Mais informações: http://www.pos.ufs.br/letras/senalic/index.php

terça-feira, 2 de março de 2010

Ah, o amor...



Amar: compreender

Casar: compartilhar

Brigar: pra quê?!

Choros e risos...

O Outro.

Nós! 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O que seria de nós sem artistas como Ron Mueck??









Ron Mueck é um escultor australiano hiperrealista que trabalha na Grã-Bretanha.
Este escultor utiliza efeitos especiais cinematográficos para criar obras de arte. São incrivelmente realistas e se não fosse o tamanho de suas esculturas certamente seriam fáceis de serem confundidas com pessoas.
No início de carreira, foi fabricante de marionetas e modelos para a televisão e filmes infantis, nomeadamente no filme Labyrinth.
Mueck criou a sua própria companhia em Londres, trabalhando para a indústria de publicidade. Embora altamente detalhados, estes adereços eram geralmente projetados para serem fotografados de um ângulo específico. Mueck cada vez mais queria produzir esculturas realistas.
As suas esculturas reproduzem fielmente os detalhes minuciosos do corpo humano, mas joga com escala para produzir desconcertantemente imagens visuais. Com cinco metros de altura, a escultura Boy 1999 foi exposta na Bienal de Veneza.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Canção para a menina maltratada


Não, não será com métrica
nem com rima.
Uma coisa sem nome violentou uma menina.
Ação barata
sem a prata
do pensamento
o ouro do sentimento
o dia da empatia. Noite.
Uma coisa. Não era o lobo
nem o ogre nem a bruxa,
era a fúria do real
sem o carinho do símbolo.
Stop, a poesia parou.
Ou foi a humanidade?
Stop nada, a menina sente e segue
com métrica, rima, graça, vida.
Onde está tua vitória, ignomínia?
Uma prosa continua
poética como era
saltitante o bastante
para não perder a poesia.
A coisa (homem?) é punida como um lobo
no conto de verdade. E imprime-se um nome
na ignomínia.
A menina liberta expressa
ri e chora, volta a ser
qualquer (única) menina.
Pronta para a métrica
pronta para a rima
pronta para a vida
(canto de cicatriz),
pronta para o amor a dois,
à espera, suave, escolhido.

Celso Gutfreind



P.S: Assistam o documentário “Canto de cicatriz” (RS, 2005, 37min, Beta). Direção, roteiro, montagem e produção executiva de Laís Chaffe. Documentário sobre violência sexual contra meninas. Direção de fotografia: Juliano Lopes Fortes. Música: Yanto Laitano. Direção de produção: Raquel Sager. Participação especial: Ingra Liberato, com o poema Canção para a menina maltratada, de Celso Gutfreind. PRÊMIO DIREITOS HUMANOS NO RS; DOIS PRÊMIOS GALGO ALADO NO GRAMADO CINE VÍDEO: MELHOR NO GÊNERO VÍDEO SOCIAL E MELHOR VÍDEO INDEPENDENTE BRASILEIRO.