"O irônico é uma vampira que sugou o sangue de seu amante e o abanou com frescor, o embalou até dormir e o atormenta com sonhos turbulentos" (Soren Kierkegaard. In: The Concept of Irony).

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Poeminha do contra


Tirei esta foto da foto, simulacro do simulacro, quando fui à Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre. Me encantei com o sorriso do poeta e logo, abaixo, este poeminha, uma das minhas orações diárias, que me acompanha desde Feira.
E olha que eu venho passarinhando a muito tempo, mas de vez em quando baixo as armas, e acredito que as pessoas são boas ou não querem atravancar a não ser o seu próprio caminho. Mas, de quando em vez, me deparo com alguns atravancadores de caminhos alheios, me chateio, caio na real (isso aqui não é novela, menina!) e, logo depois, penso e rezo a oração que Quintana fez para mim.  
Sim, ele fez para mim, para vc e para todos nós. Acho que para entendermos que tantos os atravancadores quanto os problemas que eles nos trazem irão sempre passar, enquanto eu continuarei e, vc se quiser, a passarinhar!!
Viva Quintana!!!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Há saudades!

Há saudades!

De quando era criança.
Das galinhas de minha bisa me “pinicando” os pés e a canela.
De minha vó me acordando às 5hs da manhã para tomar banho e ir para a escola.
De minha mãe com seu abraço aconchegante e seu choro de cachoeira.
De um pai.
De meus irmãos e irmãs, todos juntos, numa mesa grande colonial esperando o cuscuz de bisa.
De minhas sobrinhas me sufocando de saudades e carinho.
De meu sobrinho, de ser tua tia.

Há saudades.

De Andar...aí.
Do Bar d’Amina.
De Igatu.
Do Pati.
Dos banhos de rio.
Das noites que ficávamos até a madrugada na ponte tomando vinho e desafinando.

Há saudades.

Dos meus cabelos encaracolados, vermelhos.
De jogar handebol.
Da comida de Tia Verinha e de sua casa aberta a todos.
Das amizades que não resistiram.
Das amizades que resistiram.

Há saudades.

De ler sem fichar e resenhar.
De dançar até o amanhecer.
De beber até cair.
De não me preocupar tanto.
De ser mais leve.
De confiar sem suspeição.

Há tantas saudades!


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Sobre a solidão


Eu, tu, a solidão e a morte



EU - Acompanhados ou não. A solidão nos habita. Está SEMPRE conosco.

TU - A morte também.

EU - Ufa! Que bom: pensei que erámos só eu a solidão!

TU - Já não morremos sozinhos. Vejo-as ao meu lado.

EU - Elas te espreitam no silêncio?

TU - Não. Dão gargalhadas! Ou: não dão gargalhadas.

EU - Vês Sísifo subindo o monte. Olhe ao seu lado.

TU - Consegue vê-las?

EU - Olhe direito. Ali. Estão lá.

TU - Que bom. Ele não está tão só.

EU - Vês Nair fazendo um aborto, a perfuração, o sangue,

TU - Glorinha que se vai e se esvai...

EU - Elas estão lá,

TU - dando-lhe o beijo que tanto queria na hora do retorno.


                                                                 

(Des)acompanhada


Cena 1:

Um show de MPB. É daquela banda que adoro. Os ingressos já estão sendo vendidos... Esse final de semana não, querida. Combinamos de ir à casa dos meus tios. Eu te avisei. Tudo bem, tinha me esquecido. Bom, daqui a quinze dias, haverá um musical naquele teatro do centro da cidade. O grupo é ótimo. Pensei em te convidar. Poxa, amor, você sabe que não curto teatro. A gente podia ir a um barzinho, tomar umas cervejas. Conversamos um pouco e depois seguimos para a minha casa. Que tal?

Cena 2:

Amiga, quanto tempo! Como tem andado? Morro de saudades da época da faculdade. Nos matávamos de estudar, mas também nos divertíamos um bocado. Tem notícias da galera? Nunca mais vi ninguém. Foi muito bom te encontrar por aqui. Olha, no sábado darei uma festa em minha casa. Vai rolar boa música. Chorinho. Você gosta? Me dá o teu celular. Vou te ligar e te passar o meu endereço. Gosto, sim. Vou aparecer. Obrigada pelo convite. Vá mesmo. E pode chamar quem você quiser, viu? Certo, mas acho que não levarei ninguém. Ah, desculpe, não tem quem te acompanhe? Está solteira ainda, moça? Você, hein, sempre exigente. Não é isso. Eu tenho companhia, mas ando só.

Lidiane Nunes.



Solitudinária


40 apartamentos ─ 40 galáxias.

Quase 200 pessoas ─ estrelas esgotadas.

Mais porteiros, visitantes e empregadas estressadas.

E a faxineira que vem toda quarta cantando “bororó, bororó”.

Todos moram comigo.

E eu moro só.

BARBOSA, Carlos. A segunda sombra. Rio de Janeiro: Multifoco, 2010.


Foto 1: Mr. Badger

Foto 2 : Imapix

sábado, 23 de outubro de 2010

Outra viagem ao Rio Grande do Sul




Assistir ao documentário experimental, Ilha da Flores (1989), dirigido por Jorge Furtado, e encontro mais um Brasil atual, ácido e cruel. Encontro os homens numa escala inferior à dos porcos. O homem sem escolha, sem liberdade, sem poder decidir como viver. A sinopse do curta se resume na história de um tomate plantado, colhido, transportado e vendido num supermercado, mas apodrece e acaba no lixo. Acaba? Não. O documentário segue-o até seu verdadeiro final, entre animais, lixo, mulheres e crianças.
No final, ouvimos e vemos que "O que coloca os seres humanos da Ilha das Flores numa posição inferior aos porcos na prioridade de escolha de materiais orgânicos é o fato de não terem dinheiro nem dono. Os humanos se diferenciam dos outros animais pelo telencéfalo altamente desenvolvido, pelo polegar opositor e por serem livres. Livre é o estado daquele que tem liberdade. Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda".

É inacreditável, mas assim é o Brasil: cheio de pequenos brasis que ainda nos assustam pela discrepância e desigualdade entre os homens (e os bichos)!!

(Mais informações: http://www.casacinepoa.com.br/os-filmes/produ%C3%A7%C3%A3o/curtas/ilha-das-flores).

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

III Encontro de Pós-Graduação em Letras – ENPOLE


O ENPOLE é um evento de projeção nacional que visa ao debate sobre as diferentes abordagens dos estudos liguistícos e literários na pós-graduação em letras. Esta terceira edição prioriza o enfoque nos DESLOCAMENTOS CULTURAIS. Com o intuito de levar essa discussão para uma visão politizada da pesquisa em letras, o prof. Dr. Prof. Dr. Benjamin Abdala Júnior (USP/CAPES) abrirá este evento com uma conferência: "Comunitarismo supranacional e os estudos literários".

Com o propósito de aprofundarmos as discussões em torno das diferentes metodologias de pesquisa nos programas de pós-letras/linguística, o III ENPOLE está recebendo propostas de professores doutores para compor as mesas-temáticas que priorizarão a divulgação de pesquisas relacionadas ao tema desta edição.

Por trata-se de um evento acadêmico, este evento está voltado para pesquisadores de Letras e áreas afins: professores universitários, doutorandos, mestrandos, graduados. Além disso, com o intuito de propor uma reflexão entre as pesquisas da pósgraduação e da graduação abrimos espaço para a apresentação de comunicação apenas para os pesquisadores vinculados oficialmente aos programas de pibic, pibix, pibid, entre outros, de pesquisa em instituições de nível superior.

Mais informações: http://www.pos.ufs.br/letras/enpole2010/index.php

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Um passeio pelo Rio Grande do Sul

"Livre é o estado daquele que tem liberdade. Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda". (Ilha das flores - 1989)

Participei do IV Colóquio Internacional Sul de Literatura Comparada (6-8 outubro de 2010) apresentando um trabalho sobre a ironia nas obras Os sete gatinhos, de Nelson Rodrigues, e em O pecado de João Agonia, de Bernardo Santareno. Mas, aproveitei para ficar com meu marido, que me acompanhou na viagem, até o dia 10 e conhecer o que pudesse no Rio Grande do Sul. Primeiro, fomos até o Mercado Público para comer e beber uma cervejinha (que ninguém é de ferro!!). Adorei aquele lugar: muita gente junta, comida boa, bebida gelada, artesanato, guloseimas...


Daí, seguimos para a Casa de Cultura Mário Quintana e lhes digo: valeu apenas demais!! A sensação que tive foi de estar mais íntima desse poeta que tanto amo (bem sabem aqueles mais próximos de mim a quanto tempo o Poeminha do Contra me acompanha!!). Para quem deseja seguir para o RS adianto que nesta Casa é possível ver muitas fotos de Quintana, poesias, uma réplica de seu quarto (a sensação é que ele acabou de acordar e seguiu para o banho deixando para trás aquela velha e íntima bagunça matinal), ter acesso à documentos pessoais do poeta, ao Quintana's bar, à oficinas de artes cênicas, informações diversas sobre artistas e espetáculos produzidos na capital gaúcha e, ainda, se deliciar com a leveza do Jardim Lutzenberger e com O Espaço O tempo e o Vento, em homenagem a Érico Veríssimo. Por isso, quando puderem, não percam tempo e sigam para uma das casas de Mário Quintana em Porto Alegre!


                                          Réplica do quarto do poeta Mário quintana 

Neste mesmo dia, tbm fomos à Usina do Gasômetro, perto do Rio Gauíba (agora rebaixado à lago pela burocracia dos homens). Da Usina se tem uma vista privilegiada, feiras de artesanatos, cursos, oficinas e um ótimo atendimento!!

                                                  
Mas, não paramos por aí... Visitamos a Pça da Matriz (LINDA!!!), localizada no coração de Porto Alegre, onde se encontra o Monumento de bronze em homenagem ao estadista gaúcho Júlio de Castilhos, criado pelo escultor Décio Villares, além da Catedral Metropolitana de Porto Alegre, o Theatro São Pedro e o Palácio Farropilha.


Depois, seguimos para o Museu da Comunicação Hipólito José da Costa, uma instituição cultural voltada para a conservação, a pesquisa e a divulgação da história da Comunicação Social no RS, e vimos a exposição As faces do olhar, que insistentemente, nos questionava todo o tempo se, realmente, sabemos nos comunicar. " (...Vc tem ctz d q sabe msm c comunicar?). Eu não!!!!


Neste museu, ainda visitamos o seu acervo, disponível para consulta, que abrange diferentes áreas da Comunicação, como jornal, televisão, vídeo, rádio, fonografia, publicidade e propaganda, fotografia e cinema. Abaixo, um obra, no mínimo curiosa, que adoramos!!

Vamos nos reunir no quintal
e ver o quanto o nosso olhar pode ser generoso...


Incansáveis, sedentos de conhecer tudo o que pudessémos... seguimos para o Centro Cultural Érico Veríssimo, mas no caminho paramos... para ouvir e ver uma performance do Conjunto Bluegrass Porto-Alegrense, que costuma se apresentar, principalmente nas ruas - em tradicionais feiras de antiguidades e no centro da cidade - interagindo com o público e compartilhando, numa éspecie de oficina, o conhecimento da história da música bluegrass.


Depois de uns 30 min, seguimos para o CEEE e lá pudemos ver a Exposição Mário Quintana - O jardim interior. Maravilhosa, principalmente por se tratar do meu amado Quintana, mas, também pelas fotos e textos. I-nes-que-cí-vel!!!


No nosso último dia no Rio Grande do Sul, dois amigos maravilhosos: Juliana e Aníbal, nos deram de presente uma visita às cidades de Nova Petrópolis, Gramado e Canela. No caminho, conhecido como Rota Romântica, apreciamos uma bela vista de um dos tantos mirantes existentes nos 184 km da rodovia. O frio cortante e o vento no rosto nos fizeram sentir algo semelhante ao clima do Vale do Pati, na cidade de Andaraí, Bahia.


Eu e meu marido voltamos a ser crianças e nos perdemos no Labirinto Verde (Nova Petrópolis). Lá, dentro encontramos crianças, adolescentes, idosos e a alegria de viver o que a vida, generosamente, nos oferece.


A cidade de Gramado, por sua vez, é um pedacinho de alguma cidade europeia no Brasil. Eu nunca fui à Europa, mas a sensação que tive é que, por algumas horas, estive lá e aqui ao mesmo tempo. Me senti bem demais ao visitar o local, muito bonito por sinal, onde é realizado o Festival de Cinema de Gramado.


Tbm fomos ao Lago Negro (esverdeado), belo, calmo e bastante acolhedor.


Assim, como na capital gaúcha, Gramado oferece música ao vivo, de graça e de qualidade, no meio da rua.


Valeu a pena admirar a beleza da arquitetura da cidade...


Fechamos um dos dias mais maravilhosos de nossas vidas no Parque do Caracol, em Canela. Andamos por uma belíssima trilha ecológica. E, de novo, foi inevitável, não sentir saudades do Vale do Pati, da Chapada Diamantina, com a água respingando no rosto, das cascatas, corredeiras, do suor frio depois de uma caminhada no frio cortante do Sul. Aquele momento nos possibilitou sentir um pouco de Deus, um pouco do que temos de melhor.


Voltamos, nostágicos... lembrando de nosso amado Fernando Pessoa: tudo vale a pena se a alma não é pequena!!! Vamos nos permitir e deixar de nos incomodar com um cisco no olho, pois o bom da vida é passarinhar!!!

Fotos: Aníbal, Juliana, Maurício e Sol.
Texto escrito a quatro mãos!

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Carpe diem

aproveita o momento

quando os olhos falam uma língua 
que a língua não sabe
quando as mãos seguram o instante
como se fossem avaras de eternidade
quando os ouvidos apenas suportam
a música dos ansiados passos
e há um único aroma que se não repugna
quando o teu sorriso é o reflexo
do sorriso à tua frente
quando as estrelas são todas convocadas
para iluminar o rosto desejado
então é a hora o minuto o segundo
de fechar os olhos e ganhar asas

aproveita o momento

a vida só é curta quando não subimos
o estribo da carruagem que parte
quando ficamos a ver passar todos os comboios
a vida só é aventura quando se busca a ventura
que não tem pés para vir ter connosco
é preciso partir dar as mãos ao inédito
e assumir que quando caminhamos
nem todo o terreno é um pântano assustador
é preciso acreditar

aproveita o momento

porque outros momentos virão
em que nada pode acontecer
porque o tempo resvala inexorável
e o instante seguinte é muito tarde
e pelo menos tão desconhecido quanto este
porque os cabelos encanecem
e as mãos ficam murchas de esperança
e o peito qualquer dia é um assento de pedra
porque só agora é agora e logo o sol já se deitou
e amanhã já perdeste metade dos ensejos

aproveita o momento
e eterniza-o o mais que puderes
aproveita o momento
e dá-lhe as boas vindas
sorri-lhe manda-o entrar
e adormece no seu ombro.


MONTEIRO, Anthero. Carpe diem. In: Sete Vezes Sete Nuvens. Porto: Egoiste, 2010